Dificilmente escrevo sobre lançamentos recentes, principalmente discos nacionais. Tenho sempre a impressão que é preciso deixar os álbuns maturarem para se perceber a importância que eles podem vir a ter dentro de minha vida e de minha apreciação pessoal. Além do mais, por estar em atividade como músico e produtor no país nem sempre me sinto a vontade para escrever sobre o trabalho de companheiros de profissão, já que mal entendidos acontecem facilmente nesta nova dinâmica das redes sociais e dos lançamentos e divulgações online.

Com o disco de estreia da artista paulistana Susan Souza foi diferente, talvez pelo envolvimento de Steve Shelley da banda Sonic Youth na produção ou simplesmente pelo mistério que sua beleza incomum causa em mim. O certo é que acompanhei atentamente, com a curiosidade de um tarólogo, a narrativa pessoal de Susan e o processo de gravação e lançamento do álbum Nabia, de seu projeto Cinnamon Tapes, lançado recentemente pelo selo Balaclava Records.

O disco e suas belas melodias e letras me alcançam em um lugar fresco e tranquilo, aquele cantinho onde guardo lembranças e memórias cuja a trilha sonora tem a voz da Hope Sandoval e o quadro pendurado na parede tem a figura imaginária da esposa naturalista do Donovan, voltando pra casa depois de um longo dia na praia.

Tudo parece singelo, aquela dor da transformação e do amadurecimento que algumas poucas pessoas se sujeitam a encarar. Gostar do mar, do sol, das tardes de biquíni ou de colecionar conchas parece algo tranquilo quando se comparado ao encarar de sombras desconhecidas que a vida insiste em colocar em nossos caminhos. Ao evocar a Deusa Lusitana das Águas, Susan se colore em fantasia de sereia, se veste de mito e deixa o caminho aberto para a imaginação navegar pelas nove faixas arquetípicas do disco.

Road, a faixa que abre o álbum, nos avisa que é hora de partir, é hora de pegarmos esta estrada onírica do ser, jogar aquela roupa velha e deixar-se levar por novos e leves sonhos, mesmo tendo a certeza que as coisas não serão fáceis, é preciso partir, um novo dia, uma nova vida, um novo jeito de se ver e se amar. Podemos até convidar amigos, familiares ou amantes a nos acompanhar, mas o trabalho espiritual e amadurecimento de nossa personalidade, na maioria das vezes, é um processo solitário. É claro que a natureza e seus elementais, podem nos dar pistas, direções ou diapasões, mas é apenas em nossos corações que encontraremos a verdade que procuramos, o nosso oceano, fazemos ao navegar.

A jornada marítima continua com Sol, segunda faixa, que é como uma ode à solidão, a constatação das dificuldades desta jornada solitária do ser e de nossa pequenez diante do mar infinito de impossibilidades, a triste e velha bossa nova, da concha em forma de barco, do segredo que guardamos dentro do peito, amarrado bem forte como um nó de marinheiro.

Neste caminho sem volta, o mergulho é fundo, os precipícios são altos. Skull mergulha-nos em mentiras, em decepções, desgostos e desassossegos. O preço de se ter o mundo todo aos nossos pés é não poder ser nada, a recompensa de não se ter nada é acabar por ser o próprio caminho. A transitoriedade e a morte em vida, posta em linhas poéticas na canção de desamor ou no canto mudo de uma sereia fora d'água.

Estrela aponta para o céu, mas quem se conhece, sabe, que este caminho só te um destino: o Inferno. Aquele lugar que fica nas mais distantes profundezas do ser, onde a lava queima, onde as pedras selvagens, condensam-se, espremidas, e tornam-se cristais. É uma dor que permanece ali, lapidando cada pequeno medo, dando força a cada pequeno demônio, escrevendo versos mentais diabólicos, que destroem toda e qualquer esperança. Mas quem veio até aqui não está disposto a desistir e Nabia respira fundo, se acolhe e se aceita. Iluminar cada pequena sombra é o único e verdadeiro trabalho iniciático e meus amigos e amigas, Susan sabe muito bem como usar um astrolábio.

Tanto é verdade, que Sacred Waves nos traz de volta à superfície, com uma pedra em seu coração, aquele amuleto, fogo sagrado roubado dos Deuses, arma mágica para enfrentar cada medo e sombra que permanecerão ali, sempre e para sempre. Mesmo a melodia não pode mentir, a esperança vem em ondas e todos já sabemos que a impermanência é a única coisa eterna, nesta confusão que chamam de Samsara, deixe a areia ir, vir e voar. Varre-la diariamente do convés de nossa embarcação é a sabedoria Zen, ensinada pelos mais antigos mestres.

Salty Eyes volta a afirmar esta luta diária, do abrir-se para os processos pessoais, para o iluminar-se pouco a pouco, dia a dia. É claro que as lágrimas vão escorrer, é claro que não será fácil, mas mesmo em luta, a guerreira Nabia vê alegria em poder ser quem ela é, mesmo que isso acabe machucando o outro, mesmo que isso decepcione quem acompanha sua jornada e insiste em não aceitar que a cada dia, somos uma nova pessoa e como os ciclos da Lua e suas marés, Nabia é Susan e Susan é Cinnamon Tapes.

A vida no navegar do eterno mistério, nos enche de dúvidas e de inseguranças, mas também nos mostra aquele nosso cheiro, aquela nossa fragrância particular, lugar de poder, onde nada e ninguém pode nos atingir. Em Cinnamon Sea, Nabia nos presenteia mais uma vez com sua voz de sereia, mas desta vez, pronta pra encarar o mundo, seja o exterior ou interior. Nabia, Susan e Cinnamon Tapes, já podem ser todas elas, uma só mulher, a cantar seus próprios sonhos e na fortaleza criada para si mesma, onde a maresia tem cheiro de canela, pode enfim encontrar a liberdade que todos nós deveríamos buscar. A liberdade de fazer o que se quer e de ser quem se é.

No fim, que é só começo, é de seu Ventre que nasce uma criança mágica, a pedra-pérola sagrada, néctar de si mesma, gestada durante anos com a dor que só as mulheres podem sentir. Uma sereia que se apaixonou por um golfinho e deu à luz mais uma deusa telepática das águas, metade mulher, metade golfinho. Que a vida seja generosa com Susan, pois a generosidade de sua voz já invadiu os sete mares.

Marky Wildstone
São Carlos, 28 de setembro de 2017.

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