Joias de família até hoje são muito comuns, algumas famílias guardam colares, relógios, anéis, medalhas, cachimbos, pulseiras, esqueiros, pingentes e outros acessórios que são passados de geração em geração, geralmente na ocasião do casamento de seus filhos ou em algum ponto de virada importante na vida de suas crias. Pais, mães, avós ou avôs presenteiam a próxima geração com algo de seus antepassados, para desta forma, honrar a linhagem da família e salvaguardar para os que virão um sentimento de identidade, uma lembrança importante, um feito histórico ou simplesmente um valor monetário que possam ajudar no futuro.

Eu, pessoalmente, não venho de uma família com tais características um tanto quanto aristocráticas. Filho de um casal que se apaixonou ainda nos anos 60 e viveu a versão brasileira dos dias em que as portas da percepção foram abertas em escala mundial, recebi desde pequeno instruções bastante claras sobre liberdade, singularidade, pacificidade e amorosidade desde meus mais remotos tempos no planeta terra.

Havia uma estante de madeira, logo ao lado da lareira da minha casa de criança, com discos e mais discos de vinil e a lembrança da capa do Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band dos Beatles é praticamente da mesma época do que qualquer ilustração do livro do Gato de Botas ou qualquer outro conto de fadas.

Era algo que eu não podia tocar sem que tivesse bastante cuidado, mas podia ouvir uma vez ou outra aqueles discos pretos rodarem na vitrola e desde cedo sabia das preciosidades que ali se encerravam. Confesso que algumas capas me davam medo, as bochechas de sapo do Dizzy Gillespie na capa de um dos discos da coleção de jazz são inesquecíveis até hoje.

O fato é que em algum momento de minha juventude, em algum ponto que eu tento, tento e tento lembrar, mas não consigo, alguns desses discos foram para o meu quarto. Quando percebi que a coleção dos discos dos Beatles não estava completa tratei logo de pedir a cada aniversário e natal os Lps que faltavam. Minhas tias e meus amigos sempre me presenteavam com discos, compactos e livros do fabuloso quarteto de Liverpool. Até cheguei a me filiar ao fã clube oficial dos Beatles no Brasil e recebia mensalmente cartas de um barbudo chamado Marcos A Malagolli, no qual, inclusive, me mandou uma carteirinha oficial do fã clube.

Ao reouvir o disco do Sargento Pimenta hoje, dia 1 de Junho de 2017, aniversário de 50 anos do álbum, me deparei novamente com a edição original do LP, comprada pelo meu pai na ocasição do lançamento, em 1967. Com encarte original, formato sanduíche de plástico e nem se quer um risco em seus sulcos.

A própria capa, com personalidades mundialmente aclamadas e outras nem tanto, também me deram essa ideia de legado para futuras gerações, deixando claro que sim, o quarteto de Liverpool era mesmo fabuloso, mas quanta gente veio antes e quantos ancestrais de suas famílias ou da comunidade global, contribuíram para que uma obra com este impacto fosse composta, vendida e se tornado um objeto de arte imortal e porque não, indestrutível.

Esta joia de família já está na casa da minha família há cinquenta anos e deve se prolongar por mais décadas e décadas, quem sabe séculos ou milênios. Discutir sua importância ou o seu conteúdo pode ser bastante importante em algumas áreas do conhecimento, mas no seio de uma família que viveu e vive ainda hoje, a bem-aventurança de se acreditar nos próprios sonhos e lutar incansavelmente pela realização pessoal de sua prole, escutar e apreciar os acordes, as letras, os arranjos e os mistérios do Sargento Pimenta já bastam.

No final das contas, depois de tanto tempo, a Banda dos Corações Solitários continua a retumbar no meu peito e o Sargento Pimenta é aquele cara que morava na minha casa e desde pequeno eu chamo de Pai.

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