Todos sabemos que na história do rock existem muitos mistérios e teorias conspiratórias, histórias essas que dificilmente não sentimo-nos atraídos, curiosos e as vezes até apaixonados. Não é difícil vermos postagens, matérias, livros e até estudos sobre essas histórias, sendo exploradas por fãs, jornalistas, biógrafos e fofoqueiros de plantão. Algumas dessas histórias misteriosas dizem respeito à supostos rituais profanos, pactos com entidades espirituais, orgias incalculavelmente sangrentas, assassinatos sem possíveis investigações, desaparecimentos sem explicações, lendas urbanas, retiros espirituais, mensagem ocultas em discos rodados ao contrário, substituição de artistas famosos no auge de suas carreiras, símbolos mágicos em roupas e capas de discos, perda da sanidade mental, sincronismo universal de artistas e obras, uso abusivo de drogas de todos os tipos e inúmeros outros exemplos de curiosidades bizarras. A vida de uma estrela do rock traz sempre esse brilho misterioso, essa sombra inalcançável, esse invejável sabor de mito pós-moderno.

A banda norte-americana de rock alternativo Pixies lançou Doolittle, seu segundo LP, em abril de 1989 e traz em suas faixas características que viraram marcas registradas de sua obra, praticamente todas as música se tornaram clássicos, mas é na sétima faixa desse grande álbum que a figura de um macaco que vai ao Céu aparece, ele já figura na capa do álbum, rodeado por linhas da geometria sagrada e pelos algarismos 5, 6 e 7. O macaco traz uma aureola de santo em cima de sua cabeça, imagem essa que não é difícil de ser lembrada, ainda mais depois de ouvir o disco por tantas vezes, como eu tenho certeza que muitos do que aqui estão lendo, assim já o fizeram.

Alguns consideram a temática do single Monkey Gone To Heaven algo próximo do ambientalismo, já que em certo momento Black Francis canta sobre dez milhões de quilos de lama que soterraram um cara que vivia nas profundezas do oceano. O próprio cantor, já comparou a temática da música com grandes mistérios marítimos como o Triangulo das Bermudas, a lendária cidade de Atlântida ou mesmo as mitológicas Sereias.

Seria muita pretensão deste que vos escreve, pedrinha selvagem do fundo do mar, almejar o desvelar deste sagrado mistério, auspicioso amalgama do funeral do deus Netuno, buracos negros no carpete da noite infinita, vida após a morte, almas queimando no inferno, numerologia hebraica, kabbalah, salmos bíblicos e até a visão apocalíptica da total aniquilação da humanidade.

Quando esta canção toca, após alguns arrepios que me vem de certo, a ideia do acesso ao grande mistério divino através da aceitação de nossa natureza animal me parece irremediavelmente nítida. Sendo o humano o número 5, como poderíamos atingir o 7 sem passar pelo 6? Me parece muita tolice humana ainda acreditarmos que existe um atalho para o macaco poder voar até o tão desejado Céu e por fim, se tornar a estrela prometida. O diabo está ali mesmo, no número 6 e só o macaco pode nos levar até ele. Você sabe, eu sei, todos sabemos o que isso quer dizer e eu pelo menos já tenho certeza que esse macaquinho é bem esperto.

No fim, essa reflexão, palavras jogadas pela janela da nave do macaco espacial, é apenas um convite à meditação, apenas a constatação de que este pequeno poema musical dos anos 80, do século XX, pode e deve ser encarado como um verdadeiro koan, aqueles antigos poemas da tradição budista que contém aspectos que são inacessíveis a razão humana. Desperte teu macaquinho sonâmbulo e deixe ele apreciar tudo isso, ele vai voar de qualquer jeito.

Share