Foi em uma loja de discos de Brasilia, capital do Brasil, que enfim eu me encontrei com o disco duplo Inside the Great Pyramid do flautista novaiorquino de jazz Paul Horn.  Já havia encontrado-o em outras lojas e sebos, mas sempre em péssimo estado. Capas danificadas, discos riscados, falta de um dos LPs ou qualquer coisa assim, ele não me parece ser um disco difícil de ser encontrado, mas tenho certeza que é difícil de ser comprado já que nunca vi-o em coleções alheias.

Naquela altura, já me encontrava bastante atento ao teor místico de certos discos e os desdobramentos iniciáticos que certos artistas tiveram em suas carreiras musicais. É possível ver Paul Horn em algumas fotos indianas dos Beatles, sendo para mim, aquele momento, bastante importante neste ponto de vista. Pesquiso e acompanho a carreira de Paul Horn desde que o médico e acupunturista Edson Zuculoto me receitou-o em uma de minhas consultas.

Com o disco duplo embaixo do braço, segui para o Aeroporto Presidente Juscelino Kubitschek, onde fui abordado na cafeteira por um senhor de cabelos brancos, grande bigode e roupas coloridas. As primeiras palavras em inglês, já a respeito do disco, me chamaram bastante atenção, mas em pouco mais de um segundo eu já sabia que estava falando com o flautista australiano Ronald Rothfield, para os mais íntimos Raja Ram.

Foi em Itú, no interior do estado de São Paulo, nos primeiros anos do século corrente, em uma festa de musica eletrônica psicodélica, que havia presenciado sua performance sob a alcunha de 1200 Micrograms, um projeto de Psy Trance onde Raja Ram alia sua grande experiencia de flautista de rock psicodélico com as então atuais 142 batidas por minuto das festas rave. A conversa não foi longa, apenas alguns minutos, mas fiquei bastante feliz de ter em mãos um dos discos favoritos do Sr. Rothfield e de alguma forma, sentir a magia contida neste disco.

Paul Horn fez sua carreira nos anos 50 como exímio flautista de jazz, tendo gravado excelente discos pelas estampas Dot, Columbia e RCA, mas foi em 1968, após seu contato na índia com a Meditação Transcendental de Maharishi Mahesh Yogi que Horn iniciou seu caminho através da World Music, New Age, Música Experimental e Arqueoacústica. Tendo gravado discos completos dentro do mausoléu Taj Mahal na Índia, no Palácio de Potala no Tibete, em Catedrais, Cânions e é claro, dentro da Pirâmide de Quéops.

Com um gravador Nagra Stereo, um microfone Studer Stereo e um Ampex 407, Paul Horn passou uma noite dentro da famosa pirâmide egípcia onde registrou as faixas desse álbum usando uma flauta doce contralto, uma flauta em dó, um pequeno flautim e seu próprio corpo e voz. Os temas são separados em dois grupos de salmos, “Iniciação” e “Meditação” e o resultado é mais do que intrigante e fenomenal.

Paul Horn faleceu no dia 29 de junho de 2014 mas nos deixou além desse grande presente, uma obra musical de extrema técnica e valor artístico inestimável, talvez os flautistas mágicos não existam só nos contos folclóricos dos Irmãos Grimm.

Ouça o álbum completo:

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