Me chama bastante atenção o fato de minha mente ainda fazer associações entre discos e bandas com a imagem emotiva de certos amigos e amigas e suas personalidades. Quando comecei a colecionar música e me interessar em ampliar meu repertório isso era praticamente a única forma de mapear o universo musical.

Lembro de ter em mente que o Guigo é o cara que tem os Red Hot Chilli Peppers, o Daniel os Meat Puppets, o Gustavo o Samiam do girasol, o Guto os Pixies, o Rodrigo as Trilhas Sonoras, o Marcos os discos do Titãs, o Cezarino os New Model Army, o Palo as fitas velhas do Cock Sparrer, o Tiaguinho o Sarcofago, o Rafa o disquinho do I.H.Z., o Dijalma o Green Day, o Icaro o quase completo catálogo da Alternative Tentacles, a Raika os da Bjork, o Marzio os títulos da SST, o Caleb os Mother Love Bone, meu irmão os Soft Cell, o Eric os The Clash, a Gabriela os Galaxie 500, o Osvaldo os Alien Sex Fiend, o Basso os Led Zeppelin e o Gabriel os Einstürzende Neubauten. A coleção universal de discos era composta de bandas, selos, formatos e... amigos.

Estas associações se estenderiam muito mais se em um exercício de memória e paciência, me dispusesse a fazer esta catalogação afetiva. Não apenas mais amigos e lembranças apareceriam mas a cada amigo mais discos e bandas surgiriam.

Isso faz com que a música e os discos se tornem parte das relações pessoais, já é claro e bastante explorado que a ampliação do repertório musical nesta época distante passava pela gravação de fitas cassete de discos que os amigos tinham, mas mais do que isso, passava pelo explorar e entender o gosto musical alheio. Sempre prezei pelo entendimento e apreciação deste aspecto, talvez seja por isso que hoje me encontro em um lugar onde o meu gosto musical pouco importa, quando se comparado a importância história das obras, dos artistas, dos movimentos, estilos e memórias afetivas dos mesmos. A historicidade social e/ou pessoal constroem e ramificam uma árvore bastante rica de apreciação, fruição e consumo musical onde a cada novo galho, novas relações pessoais e memórias afetivas são consolidadas.

Não há como negar que a disponibilidade digital de música facilitou enormemente o processo de pesquisa, entretenimento e consumo musical mas eu tenho minhas dúvidas se esta árvore não acabou ficando um tanto sem água. Vejo, com o ressurgimento do consumo massivo de discos de vinil, uma talvez volta dessas relações, ou parte delas. Devido as prioridades de consumo e distintos gostos musicais, sinto novamente esta face emocional da coleção de discos alheia. Logicamente que não voltaremos ao mesmo ponto e nem me parece apropriado, mas já consigo visualizar novamente esta troca afetiva entre amigos mais próximos e colecionadores distantes.

A mudança social da apreciação musical em simples aparelhos digitais individuais de reprodução de mp3 para a volta do colecionamento de objetos musicais e até a criação de espaços temporários de troca e audição dos mesmos me parece bastante salutar à reconstrução deste tipo de relação afetiva a que me refiro.

Talvez, para aqueles que nunca se cansaram da busca pelo vinil perfeito, isso nunca tenha mudado, mas tenho certeza que isso sempre acaba preenchendo a etiqueta de preço dos discos com valores que não tem nada a ver com as cifras da moeda vigente. Não tem preço, poder desfrutar com pessoas queridas, a audição da joia rara que garimpaste com tanto esmero e dedicação. Solta o play, DJ.

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